Primeira-ministra alemã, que em breve irá deixar o cargo após 16 anos no poder, admite que começou a fazer gesto porque “não sabia onde colocar as mãos”, segundo fotógrafa. Premiê diz que ele demonstra “talvez um certo amor pela simetria”. Bonecos de madeira representam a primeira-ministra alemã Angela Merkel fazendo seu tradicional gesto com as mãos, em uma fábrica de artesanato em Seiffen, na Alemanha, em foto de 20 de agosto
Christof Stache/AFP
O “losango” de Angela Merkel, seu gesto com as mãos unidas pelas pontas dos dedos na frente da barriga, se tornou quase tão famoso quanto a própria chanceler da Alemanha.
No início dos anos 2000, quando ainda não dirigia o Executivo, mas presidia o partido democrata cristão CDU (centro-direita), Merkel “não sabia onde colocar as mãos”, explicou alguns anos depois a fotógrafa Claudia Kempf sobre a origem do gesto, hoje icônico.
“Ela as deixava penduradas ao lado do corpo, o que a fazia parecer impotente. Ou as juntava e então eu dizia a ela: ‘Assim você parece a filha de um pastor’”, contou a fotógrafa do jornal “Rheinische Post” em 2009.
A chanceler deu em 2013 sua própria versão sobre como surgiu o gesto, uma descoberta pessoal, de acordo com ela.
“Sempre houve a dúvida quanto a onde colocar os braços, foi assim que me veio a ideia”, afirmou ela alguns meses antes das eleições legislativas daquele ano.
Segundo ela, este “losango” demonstra “talvez um certo amor pela simetria”, que lembra o estilo de governo de Merkel, marcado pelo pragmatismo, a busca de consenso, mas também criticado pela falta de visão política em determinados momentos.
“Culto à personalidade”
Em 2013, Merkel, que deixará este ano o cargo de chanceler após 16 anos à frente do governo alemão, aspirava ser reeleita pela terceira vez.
Assim, a CDU baseou sua campanha nessas eleições em torno da personalidade da chanceler.
Um cartaz gigante de 20×70 metros, inspirado no famoso gesto, foi colocado na estação central de Berlim.
Outdoor mostra as mãos da primeira-ministra Angela Merkel, em seu gesto tradicional, durante sua campanha para reeleição, em 2013
Johannes Eisele/AFP
Nele, havia uma imagem das mãos de Merkel fazendo o losango, acompanhada por 2 mil imagens de mãos e com o slogan: “O futuro da Alemanha em boas mãos”.
Esta campanha indignou seus rivais por seu caráter personalista e nas redes sociais chegaram a caricaturar Merkel como se ela fosse Mao.
Seus adversários social-democratas denunciaram um “culto à personalidade monstruoso e vazio de conteúdo”. “Se isso for política, caímos muito”, criticaram os verdes.
No entanto, a líder, conhecida como “Mutti” (mãe) pelos alemães, claramente prevaleceu nessas eleições e desde então seu gesto se transformou, segundo o jornal britânico The Guardian, “em uma das posições de mãos mais reconhecíveis do mundo”.
A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, faz seu tradicional gesto com as mãos ao lado do primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki, após coletiva conjunta em Varsóvia, no dia 11 de setembro
Janek Skarzynski/AFP
O “losango” tem até seu próprio emoticon e página na Wikipédia, e no famoso museu de cera Madame Tussauds em Berlim, a chanceler foi representada fazendo o gesto.
Imitada pelo social-democrata Scholz
“Acho que o losango foi adotado primeiro de forma inconsciente, depois o público detectou seu efeito distintivo e ela começou a usá-lo conscientemente como uma marca”, disse à AFP Jochen Hörisch, especialista em comunicação da Universidade de Munique.
Segundo este professor universitário, autor de um ensaio sobre as mãos, o “losango” “transmite tranquilidade e ao contrário do punho fechado ou da mão estendida não emite sinais emocionais”, o que permite gerar uma sensação intermediária “entre a proximidade e distância”.
Houve inúmeras interpretações desse gesto, desde que ele representaria uma “ponte” ou um “teto protetor” até conspirações que o consideraram uma prova de que ele faz parte dos Illuminati, uma suposta organização secreta que deteria as rédeas do poder global.
O símbolo do “losango” se tornou tão forte que outras figuras políticas alemãs, incluindo opositores da líder conservadora, tentam imitá-la.
É o caso do candidato social-democrata Olaf Scholz, que em julho apareceu na primeira página do jornal Süddeutsche Zeitung apresentando-se como o verdadeiro sucessor da chanceler, em vez do conservador Armin Laschet, o impopular herdeiro político de Merkel.
Essa apropriação do estilo de Merkel, que indignou a própria chanceler, parece estar rendendo frutos, já que os social-democratas estão à frente nas pesquisas.
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Fonte: G1 Mundo


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